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Na disputa da memória, um General por uma Mulher Originária

by peruano last modified 2009-11-18 08:08

HISTÓRIA Argentinos mobilizam doações de chaves para substituir estátua de militar por homenagem aos povos indígenas, em comemoração ao Bicentenário da independência

Cristiano Navarro
da Redação


REUNIR CHAVES e outros objetos de bronze doados por milhares de pessoas de diferentes partes do mundo para reabrir a memória e o imaginário de um povo. É assim que o artista plástico argentino Andrés Zerneri deseja marcar, em 2010, as comemorações do Bicentenário da Independência da Argentina.
Com as doações, a ideia de Zerneri é criar uma mobilização massiva e popular na substituição da estátua de uma figura que retrata a história oficial da formação do país, o General Julio Roca, por um monumento feito de bronze que resgate as raízes argentinas, homenageando os povos indígenas.
Apesar de historiadores apontarem que a campanha da expansão do território Argentino, liderada pelo General Roca no século 19, dizimou cerca de 20 mil indígenas – especialmente do povo Mapuche, que resistia na região da Patagônia –, a substituição deve já encontrar resistência entre políticos, imprensa e militares conservadores.
A homenagem aos povos originários será simbolizada na figura de uma “Mulher Originária” – como tem sido chamado o projeto – de 10 metros de altura e milhares de quilos de bronze. Todos os povos indígenas estarão representados no monumento na bandeira Wiphala (bandeira multicolor quadriculada que representa a união de todos os povos indígenas), enrolada em seus braços.
A previsão de inauguração da obra é para outubro de 2010. A “Mulher Originária” só será considerada concluída pelo autor quando for colocada no lugar da estátua do general. Por isso, Zerneri considera importante o envolvimento de uma frente de luta que conte com o apoio do movimento indígena e outras organizações sociais pela substituição das estátuas, até que uma conjuntura política e jurídica seja favorável.
Dentro desse mesmo processo organizativo, Zerneri ergueu a primeira estátua em bronze para Ernesto “Che” Guevara na Argentina.

Das mãos de todos
O recolhimento dos objetos de bronze foi iniciado há dois meses em escolas, sindicatos, bibliotecas, clubes e fábricas. Zerneri explica que a divulgação do projeto é feita artesanalmente, por meio do boca-a-boca. “A estátua é feita de bronze, mas não pedimos recursos porque não queremos interferência financeira nem na construção, nem na divulgação. Esta é a forma mais difícil, mas mais legítima de realizar uma obra verdadeiramente participativa”, conta o artista.
Porém, mesmo sem dinheiro, o apelo da obra sensibilizou nomes importantes do cinema local e conta com o apoio de inúmeras personalidades do mundo artístico, como do ator Ricardo Darín e da atriz Julieta Diaz.
Além da homenagem prestada aos povos indígenas, o projeto tem como objetivo a disputa do imaginário e a memória pública dos argentinos.
“Há décadas fomos educados com histórias oficiais, como a de que Roca é um herói assim como San Martí. Mas essa história é fundada em um racismo, já que o próprio General chamava os indígenas de sub-humanos”, esclarece Zerneri.
Para o artista plástico, a cidade de Buenos Aires tem uma particularidade que coloca mais simbolismo ao projeto, “porque se trata de uma das cidades com um dos maiores patrimônios históricos a céu aberto do mundo. E a história da Argentina se escreve nesses monumentos históricos expostos”.
Os espaços públicos por onde circulam argentinos é o campo de disputa do artista. A subversão desses espaços e sua releitura da história fazem parte dos processos de sua criação participativa.
“Queremos mostrar que é possível reinventar a história dos monumentos impostos pelo poder, que são construídos sem nos consultar. Podemos inverter: o povo se organiza, constrói e doa o monumento ao Estado. Não acredito que com uma escultura se possa fazer uma revolução, mas pode ser uma nota de nossa capacidade de participação e organização”.