Na disputa da memória, um General por uma Mulher Originária
HISTÓRIA Argentinos mobilizam doações de chaves para substituir estátua de militar por homenagem aos povos indígenas, em comemoração ao Bicentenário da independência
Cristiano Navarro
da Redação
REUNIR CHAVES e outros objetos de bronze doados por milhares de pessoas de diferentes partes do mundo para reabrir a memória e o imaginário de um povo. É assim que o artista plástico argentino Andrés Zerneri deseja marcar, em 2010, as comemorações do Bicentenário da Independência da Argentina.
Com as doações, a ideia de Zerneri é criar uma mobilização massiva e popular na substituição da estátua de uma figura que retrata a história oficial da formação do país, o General Julio Roca, por um monumento feito de bronze que resgate as raízes argentinas, homenageando os povos indígenas.
Apesar de historiadores apontarem que a campanha da expansão do território Argentino, liderada pelo General Roca no século 19, dizimou cerca de 20 mil indígenas – especialmente do povo Mapuche, que resistia na região da Patagônia –, a substituição deve já encontrar resistência entre políticos, imprensa e militares conservadores.
A homenagem aos povos originários será simbolizada na figura de uma “Mulher Originária” – como tem sido chamado o projeto – de 10 metros de altura e milhares de quilos de bronze. Todos os povos indígenas estarão representados no monumento na bandeira Wiphala (bandeira multicolor quadriculada que representa a união de todos os povos indígenas), enrolada em seus braços.
A previsão de inauguração da obra é para outubro de 2010. A “Mulher Originária” só será considerada concluída pelo autor quando for colocada no lugar da estátua do general. Por isso, Zerneri considera importante o envolvimento de uma frente de luta que conte com o apoio do movimento indígena e outras organizações sociais pela substituição das estátuas, até que uma conjuntura política e jurídica seja favorável.
Dentro desse mesmo processo organizativo, Zerneri ergueu a primeira estátua em bronze para Ernesto “Che” Guevara na Argentina.
Das mãos de todos
O recolhimento dos objetos de bronze foi iniciado há dois meses em escolas, sindicatos, bibliotecas, clubes e fábricas. Zerneri explica que a divulgação do projeto é feita artesanalmente, por meio do boca-a-boca. “A estátua é feita de bronze, mas não pedimos recursos porque não queremos interferência financeira nem na construção, nem na divulgação. Esta é a forma mais difícil, mas mais legítima de realizar uma obra verdadeiramente participativa”, conta o artista.
Porém, mesmo sem dinheiro, o apelo da obra sensibilizou nomes importantes do cinema local e conta com o apoio de inúmeras personalidades do mundo artístico, como do ator Ricardo Darín e da atriz Julieta Diaz.
Além da homenagem prestada aos povos indígenas, o projeto tem como objetivo a disputa do imaginário e a memória pública dos argentinos.
“Há décadas fomos educados com histórias oficiais, como a de que Roca é um herói assim como San Martí. Mas essa história é fundada em um racismo, já que o próprio General chamava os indígenas de sub-humanos”, esclarece Zerneri.
Para o artista plástico, a cidade de Buenos Aires tem uma particularidade que coloca mais simbolismo ao projeto, “porque se trata de uma das cidades com um dos maiores patrimônios históricos a céu aberto do mundo. E a história da Argentina se escreve nesses monumentos históricos expostos”.
Os espaços públicos por onde circulam argentinos é o campo de disputa do artista. A subversão desses espaços e sua releitura da história fazem parte dos processos de sua criação participativa.
“Queremos mostrar que é possível reinventar a história dos monumentos impostos pelo poder, que são construídos sem nos consultar. Podemos inverter: o povo se organiza, constrói e doa o monumento ao Estado. Não acredito que com uma escultura se possa fazer uma revolução, mas pode ser uma nota de nossa capacidade de participação e organização”.
da Redação
REUNIR CHAVES e outros objetos de bronze doados por milhares de pessoas de diferentes partes do mundo para reabrir a memória e o imaginário de um povo. É assim que o artista plástico argentino Andrés Zerneri deseja marcar, em 2010, as comemorações do Bicentenário da Independência da Argentina.
Com as doações, a ideia de Zerneri é criar uma mobilização massiva e popular na substituição da estátua de uma figura que retrata a história oficial da formação do país, o General Julio Roca, por um monumento feito de bronze que resgate as raízes argentinas, homenageando os povos indígenas.
Apesar de historiadores apontarem que a campanha da expansão do território Argentino, liderada pelo General Roca no século 19, dizimou cerca de 20 mil indígenas – especialmente do povo Mapuche, que resistia na região da Patagônia –, a substituição deve já encontrar resistência entre políticos, imprensa e militares conservadores.
A homenagem aos povos originários será simbolizada na figura de uma “Mulher Originária” – como tem sido chamado o projeto – de 10 metros de altura e milhares de quilos de bronze. Todos os povos indígenas estarão representados no monumento na bandeira Wiphala (bandeira multicolor quadriculada que representa a união de todos os povos indígenas), enrolada em seus braços.
A previsão de inauguração da obra é para outubro de 2010. A “Mulher Originária” só será considerada concluída pelo autor quando for colocada no lugar da estátua do general. Por isso, Zerneri considera importante o envolvimento de uma frente de luta que conte com o apoio do movimento indígena e outras organizações sociais pela substituição das estátuas, até que uma conjuntura política e jurídica seja favorável.
Dentro desse mesmo processo organizativo, Zerneri ergueu a primeira estátua em bronze para Ernesto “Che” Guevara na Argentina.
Das mãos de todos
O recolhimento dos objetos de bronze foi iniciado há dois meses em escolas, sindicatos, bibliotecas, clubes e fábricas. Zerneri explica que a divulgação do projeto é feita artesanalmente, por meio do boca-a-boca. “A estátua é feita de bronze, mas não pedimos recursos porque não queremos interferência financeira nem na construção, nem na divulgação. Esta é a forma mais difícil, mas mais legítima de realizar uma obra verdadeiramente participativa”, conta o artista.
Porém, mesmo sem dinheiro, o apelo da obra sensibilizou nomes importantes do cinema local e conta com o apoio de inúmeras personalidades do mundo artístico, como do ator Ricardo Darín e da atriz Julieta Diaz.
Além da homenagem prestada aos povos indígenas, o projeto tem como objetivo a disputa do imaginário e a memória pública dos argentinos.
“Há décadas fomos educados com histórias oficiais, como a de que Roca é um herói assim como San Martí. Mas essa história é fundada em um racismo, já que o próprio General chamava os indígenas de sub-humanos”, esclarece Zerneri.
Para o artista plástico, a cidade de Buenos Aires tem uma particularidade que coloca mais simbolismo ao projeto, “porque se trata de uma das cidades com um dos maiores patrimônios históricos a céu aberto do mundo. E a história da Argentina se escreve nesses monumentos históricos expostos”.
Os espaços públicos por onde circulam argentinos é o campo de disputa do artista. A subversão desses espaços e sua releitura da história fazem parte dos processos de sua criação participativa.
“Queremos mostrar que é possível reinventar a história dos monumentos impostos pelo poder, que são construídos sem nos consultar. Podemos inverter: o povo se organiza, constrói e doa o monumento ao Estado. Não acredito que com uma escultura se possa fazer uma revolução, mas pode ser uma nota de nossa capacidade de participação e organização”.