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CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS: Cristãos se unem por transformações

by cleber last modified 2006-02-24 15:21

Encontro, realizado em Porto Alegre, defende pluralidade religiosa e ações efetivas contra injustiças sociais

Encontro, realizado em Porto Alegre, defende pluralidade religiosa e ações efetivas contra injustiças sociais


Daniel Cassol e Raquel Casiraghi
de Porto Alegre (RS)


Porto Alegre se transforma, por alguns dias, no centro mundial dos cristãos. A capital gaúcha recebe a 9a edição da Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), de 14 a 23 de fevereiro, na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS). O último encontro ocorreu em 1998, em Harare, capital do Zimbábue.
A participação no evento não é, entretanto, exclusiva dos adeptos do cristianismo: 4.014 católicos, ortodoxos, luteranos, anglicanos, evangélicos, afro-brasileiros, indígenas e integrantes de outras religiões de 110 países discutem os rumos e a função das Igrejas, além dos desafios do Conselho frente à globalização.
Para Federico Pagura, presidente do CMI na América Latina, a realização do encontro em um país latinoamericano é simbólico. É a primeira vez que a Assembléia do CMI ocorre no continente. “Os povos da América Latina estão tensionados entre a pressão de países imperialistas e a necessidade da organização popular para combater a pobreza, a exclusão e a violência. Devido a essa realidade, o encontro precisa trazer respostas ao povo, posicionando-se sem ambigüidades sobre tais problemáticas sociais”, defende.
As atividades da Assembléia são diversas: grupos de discussão e de estudo, plenárias, bate-papos e oficinas. Na manhã e no final de cada dia, ocorrem orações conjuntas. Pela primeira vez, as deliberações do encontro são tomadas por consenso entre os participantes. Outra novidade é a participação de mulheres e jovens: 45% dos inscritos são mulheres e 15% são jovens.
Dentro dessa perspectiva de renovação, a temática dos jovens é destaque nas atividades. Foi montada uma programação paralela em que se discute os problemas da juventude e as perspectivas de organização. “A juventude reivindica maior espaço de participação no Conselho Mundial de Igrejas”, diz Nerissa Celestine, de 22 anos, que veio de Granada, na Espanha.

UNIÃO
Em praticamente todos os espaços do encontro, fala-se em união. Desmond Tutu, arcebispo da Igreja Anglicana da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz em 1984, afirma que é somente por meio de um diálogo inter-religioso que as comunidades conseguirão a unidade, elemento necessário para uma ação mais efetiva das Igrejas na sociedade. “A unidade da Igreja só vai existir quando houver respeito à pluralidade e à diversidade”, diz.
Tutu comparou sua luta ao lado de Nelson Mandela contra o regime racista do apartheid durante a década de 1980 na África do Sul, à que ele trava atualmente pelo fim do preconceito aos homossexuais e às mulheres. “Lutei contra o racismo porque se tentava castigar alguém que não tinha culpa de nada, que somente era si próprio. Atualmente, tenho lutado muito pela ordenação de mulheres nas Igrejas. E assim, também, é com os homossexuais. Nós não temos o monopólio sobre Deus”, argumenta.
O pluralismo religioso, apesar de considerado necessário, é muito temido por algumas Igrejas, o que dificulta a união pregada por Tutu. A avaliação é recorrente nas discussões realizadas no encontro. A solução é dada por Margot Kässmann, da Igreja Luterana da Alemanha: “Se você quer entrar em diálogo, tem que saber quem é. Assim, não teremos medo uns dos outros”.

CONTRA O IMPÉRIO
A luta dos pobres latino-americanos e o enfrentamento ao impe-rialismo estadunidense ganham em importância pelo fato de o encontro ser realizado em Porto Alegre. Temas que estão na pauta do dia dos movimentos populares são discutidos no Mutirão, nome dado ao conjunto de oficinas paralelas da Assembléia. “Essa é uma das assembléias que conseguiu abrir espaço para os movimentos sociais se manifestarem e trazerem sua agenda”, afirma o teólogo Carlos Gilberto Bock, da organização do evento (leia entrevista).
A presença de teólogos latinoamericanos, identificados com a Teologia da Libertação, garante a força do discurso antiimperialista. “Existem mudanças importantes na América Latina. O surgimento de pessoas como Chávez, Lula, Kirchner, Tabaré, permite gerar um espaço de pensamento próprio. Temos o desafio de nos unir contra a imposição do pensamento único. Quem está impondo neste momento bases militares em todo o continente latino-americano? Os Estados Unidos, infelizmente”, afirma o pacifista argentino Adolfo Pérez Esquivel. Para ele, os EUA promovem uma manipulação do religioso para justificar a guerra. “Quando Bush ora, Deus tapa os ouvidos”, declara.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
Para a teóloga Elsa Tamez, a América Latina vive uma renovação da Teologia da Libertação, que não enfoca apenas a exclusão do ponto de vista econômico, mas trabalha o problema das mulheres, dos indígenas, dos negros, dos jovens, dos homossexuais. “Esses tipos de opressões são importantes, mas têm que ser vistos pela opção pelos pobres. A pobreza tem rosto de mulher, já que está ocorrendo uma feminilização da pobreza. E também tem uma cor, porque os mais pobres são os indígenas e os negros. Se formos falar nos grupos de gays, precisamos falar também dos gays pobres”, afirma.
É das vozes dos latino-americanos que partem os apelos mais fortes para a aproximação das Igrejas às realidades dos pobres, defendendo que a Assembléia do CMI resulte não apenas em declarações, mas em ações práticas. “É preciso que as Igrejas levem toda a riqueza destes debates a suas bases, para que possam gerar uma consciência crítica”, defende Esquivel.

O que é o CMI
O Conselho Mundial de Igrejas foi fundado em 1948 em Genebra, na Suíça. Sua inspiração procedeu dos missionários protestantes, no início do século passado, que despertaram as Igrejas para a importância e a urgência do ecumenismo. A proposta era rejeitar a divisão dos cristãos, principalmente na orientação das ações missionárias. Em 1959, com a criação do Secretariado para a União dos Cristãos, estabeleceu-se relações de cooperação entre o CMI e a Igreja Católica. Considerada o maior encontro ecumênico do mundo, a Assembléia do CMI é realizada de sete em sete anos, há mais de seis décadas. A última, ocorrida em 1998, em Harare, no Zimbábue, tirou como encaminhamentos: formular soluções para a exclusão econômica gerada pela globalização, em especial na África; combater a Aids; aplicar melhor a tecnologia; e construir um movimento ecumênico unitário.

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