Meninos mimados
Luiz Ricardo Leitão
A burguesia do Ocidente está cheia
de meninos mimados que, sob o olhar
cúmplice e complacente dos pais,
tornam-se a cada dia mais perversos e
malignos, como o Brás Cubas criança
que Machado de Assis nos descreve:
montado ao dorso de um escravo, com
uma varinha na mão, a fustigá-lo como
se fosse uma besta, ou quebrando a cabeça
da cozinheira que lhe negara uma
colher de doce e atirando um punhado
de cinzas ao tacho, por pura pirraça. O
pior é que hoje, neste planeta neoliberalmente
globalizado, alguns desses
moleques, quando crescem, ganham
um ministério ou uma presidência de
presente - e aquilo que seria apenas
uma briga de condomínio acaba por se
tornar uma ameaça colossal à própria
sobrevivência da nossa espécie.
Não gastarei muita vela com o menino-defunto W. Bush, sobre cuja sanidade mental, aliás, pairam sérias dúvidas. Criado nos campos de petróleo do Texas, essa praga especializou- se em promover o genocídio em diversas partes do globo. Sua longa ficha criminal já é conhecida de todos os povos do mundo, por isso prefiro não dedicar maior atenção às suas bravatas. Impossível silenciar, no entanto, sobre as traquinagens de um político italiano, o sr. Roberto Calderoli, membro da Liga do Norte (o partido xenófobo aliado do governo de Berlusconi) e recém-demitido ministro das Reformas (!!!) em seu país. Do alto de seu pomposo posto, o moleque travesso "resolveu" vestir camisetas que reproduziam as polêmicas caricaturas de Maomé, cuja divulgação em jornais da França e Dinamarca gerou uma acirrada onda de protestos dos muçulmanos nos cinco continentes. O cínico Calderoli, porém, frisou que seu gesto não era uma provocação, e sim um "convite ao diálogo" com o povo árabe...
O tema não é nada simples, caro leitor. A burguesia, que se crê filha da razão ilustrada, ao desdenhar a dimensão institucional da fé, prefere "apagar" a diferença tachando a cultura do Islã de antimoderna e "terrorista". Pior ainda é a torpe relação dos homens com o universo simbólico: por ignorância, cinismo ou má-fé, muitas pessoas insistem em demonizar signos que raramente possuem uma correspondência literal com aquilo que representam. A intransigência tem várias faces, desde o "atleta de Cristo" que exorciza o inocente diabinhomascote do América carioca, até os anticomunistas ferrenhos que desejam retirar o mausoléu de Lênin da Praça Vermelha, em Moscou. Mas será que algum deles quis derrubar o Coliseu, em Roma, ou, quem sabe, o Pelourinho, em Salvador? Marcas indeléveis de episódios que nos fazem refletir sobre os (des)caminhos da espécie humana, a história está aí, de pé, para que a memória coletiva jamais venha a se apagar.
Pimenta nos olhos dos outros é refresco... Quando o alvo da lascívia ocidental é o muçulmano, estigmatizado por sua fé pública e pelo orgulho que possui de sua cultura, os moleques caprichosos não perdoam a diferença. Mas quando o feitiço se vira contra o feiticeiro, as reações são ainda mais violentas que a do menino Brás Cubas. Que o diga o senador Bornhausen (PFLSC), o bravo "liberal" tupiniquim que propôs o extermínio da "raça" de Lula & Cia: depois de ver a própria caricatura espalhada pelas ruas de Brasília (um cartaz em que seu retrato aparecia com o inconfundível bigodinho de Hitler), o moleque virou bicho e reagiu com extremo furor. O francês Antoine Compaignon escreveu que a burguesia não se escandaliza por mais nada, pois já viu de tudo neste mundo. Convinha acrescentar, no entanto, que, se nenhuma aberração a incomoda, a rebelião das massas ainda a assusta em demasia: os meninos mimados, diante dos violentos protestos do povo árabe, logo suaram frio e correram para a cama dos pais, que, ao invés de broncas ou palmadas, certamente lhes deram, às escondidas, beijos orgulhosos como recebia Brás Cubas...
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade de La Habana
Não gastarei muita vela com o menino-defunto W. Bush, sobre cuja sanidade mental, aliás, pairam sérias dúvidas. Criado nos campos de petróleo do Texas, essa praga especializou- se em promover o genocídio em diversas partes do globo. Sua longa ficha criminal já é conhecida de todos os povos do mundo, por isso prefiro não dedicar maior atenção às suas bravatas. Impossível silenciar, no entanto, sobre as traquinagens de um político italiano, o sr. Roberto Calderoli, membro da Liga do Norte (o partido xenófobo aliado do governo de Berlusconi) e recém-demitido ministro das Reformas (!!!) em seu país. Do alto de seu pomposo posto, o moleque travesso "resolveu" vestir camisetas que reproduziam as polêmicas caricaturas de Maomé, cuja divulgação em jornais da França e Dinamarca gerou uma acirrada onda de protestos dos muçulmanos nos cinco continentes. O cínico Calderoli, porém, frisou que seu gesto não era uma provocação, e sim um "convite ao diálogo" com o povo árabe...
O tema não é nada simples, caro leitor. A burguesia, que se crê filha da razão ilustrada, ao desdenhar a dimensão institucional da fé, prefere "apagar" a diferença tachando a cultura do Islã de antimoderna e "terrorista". Pior ainda é a torpe relação dos homens com o universo simbólico: por ignorância, cinismo ou má-fé, muitas pessoas insistem em demonizar signos que raramente possuem uma correspondência literal com aquilo que representam. A intransigência tem várias faces, desde o "atleta de Cristo" que exorciza o inocente diabinhomascote do América carioca, até os anticomunistas ferrenhos que desejam retirar o mausoléu de Lênin da Praça Vermelha, em Moscou. Mas será que algum deles quis derrubar o Coliseu, em Roma, ou, quem sabe, o Pelourinho, em Salvador? Marcas indeléveis de episódios que nos fazem refletir sobre os (des)caminhos da espécie humana, a história está aí, de pé, para que a memória coletiva jamais venha a se apagar.
Pimenta nos olhos dos outros é refresco... Quando o alvo da lascívia ocidental é o muçulmano, estigmatizado por sua fé pública e pelo orgulho que possui de sua cultura, os moleques caprichosos não perdoam a diferença. Mas quando o feitiço se vira contra o feiticeiro, as reações são ainda mais violentas que a do menino Brás Cubas. Que o diga o senador Bornhausen (PFLSC), o bravo "liberal" tupiniquim que propôs o extermínio da "raça" de Lula & Cia: depois de ver a própria caricatura espalhada pelas ruas de Brasília (um cartaz em que seu retrato aparecia com o inconfundível bigodinho de Hitler), o moleque virou bicho e reagiu com extremo furor. O francês Antoine Compaignon escreveu que a burguesia não se escandaliza por mais nada, pois já viu de tudo neste mundo. Convinha acrescentar, no entanto, que, se nenhuma aberração a incomoda, a rebelião das massas ainda a assusta em demasia: os meninos mimados, diante dos violentos protestos do povo árabe, logo suaram frio e correram para a cama dos pais, que, ao invés de broncas ou palmadas, certamente lhes deram, às escondidas, beijos orgulhosos como recebia Brás Cubas...
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade de La Habana















