HAITI: Préval, a ilusão do salvador da pátria
Novo presidente haitiano assume sem programa e sem condições de governar de forma soberana
João Alexandre Peschanski
da Redação
Será René Préval o homem que irá salvar o Haiti? No país caribenho, não são poucos os meios de comunicação que o comparam a Toussaint L´Ouverture, líder da Independência, expulsando os colonizadores franceses, em 1804. O governo dos Estados Unidos, responsável pela ocupação do Haiti por tropas estrangeiras desde fevereiro de 2004, teme uma aproximação entre Préval e os presidentes cubano e venezuelano, Fidel Castro e Hugo Chávez. O deslocamento de marines para a vizinha República Dominicana, em 10 de fevereiro (como noticiou o Brasil de Fato na edição 155), seria um meio de dissuadir o presidente haitiano de estreitar relações com esses governos. Em Porto Príncipe, capital haitiana, a eleição de Préval, oficializada dez dias após o pleito (leia reportagem abaixo), gera uma onda de esperança. Durante três dias, houve comemorações na cidade.
O motivo de tantos elogios, preocupações e sonhos está superdimensionado. Nem Préval tem pulso para mudar os rumos do país, nem o Estado haitiano, que ele recebe, tem recursos para tal. A avaliação é de alguém que conhece bem o novo presidente: Rénald Clérismé, funcionário do Ministério das Relações Exteriores. Ambos atuaram juntos na luta contra a ditadura de Jean-Claude Duvalier (1971-1986) e, no primeiro mandato do próprio Préval (1996-2000), quando Clérismé foi nomeado embaixador do Haiti na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o diplomata avalia que o novo governo não tem as condições para enfrentar as dificuldades sociais e econômicas do Haiti. O país é o mais pobre das Américas: 82% dos 7,66 milhões de haitianos vivem abaixo do índice da pobreza, de acordo com estatísticas oficiais. O analfabetismo atinge 52,9% da população e a esperança de vida não passa dos 51 anos. O governo interino, organizado pelas instituições internacionais que colaboram com a intervenção militar, é questionado pela população.
SEM PROGRAMA
Durante a campanha, Préval não apresentou um programa político. Em relação à ocupação do país, comandada desde junho de 2004 pela Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), não se pronunciou. "Ele disse que é preciso garantir a paz e a ordem no país. Não falou como isso seria feito. Em conversas particulares, afirmou que é contra a criação de um Exército nacional, que o país não teria como custear", relata Clérismé.
Sobre a questão agrária, em um país onde 80% da população é camponesa, Préval também não se comprometeu. "O desenvolvimento da zona rural, devastada, depende da ajuda internacional. As grandes potências prometeram enviar dinheiro, mas este nunca veio, nem virá", avalia o diplomata.
Se falta programa, sobram desafios. Em suma, criar um Estado. Construindo políticas soberanas, principalmente econômica e social. Controlando a criminalidade, galopante em Porto Príncipe. Lutando contra a corrupção, disseminada em um país onde reina a impunidade. Desvencilhando-se, como puder do jugo das grandes potências, especialmente Canadá, Estados Unidos e França.
FRATURA POLÍTICA
Clérismé considera que Préval vai estar sob muita pressão. Em primeiro, de seu antigo mentor e expresidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, exilado desde 2004 na África do Sul. "Aristide vai tentar, por todos os meios, interferir na administração de Préval, para que este o aceite de volta ao Haiti", diz. Em suas declarações, o novo presidente não se pronunciou sobre seu antigo mentor, apenas disse que todo haitiano é livre de ir e vir do país. O segundo desafio do novo presidente é a comunidade internacional, segundo Clérismé, pois vai pressionar para que ele siga a linha política que as grandes potências querem.
Por fim, Préval vai ter que lidar com um racha nos movimentos sociais haitianos, analisa Clérismé. Durante a campanha eleitoral, a principal organização do país, o Movimento Camponês de Papay (MPP), se colocou contra ele, pois considerou que ele defenderia Aristide. Outras criticaram a posição do MPP e romperam plataformas conjuntas que haviam criado, dizendo que era preciso manter uma aproximação crítica em relação ao novo presidente. Para o diplomata, a fratura social enfraquece ainda mais Préval.
da Redação
Será René Préval o homem que irá salvar o Haiti? No país caribenho, não são poucos os meios de comunicação que o comparam a Toussaint L´Ouverture, líder da Independência, expulsando os colonizadores franceses, em 1804. O governo dos Estados Unidos, responsável pela ocupação do Haiti por tropas estrangeiras desde fevereiro de 2004, teme uma aproximação entre Préval e os presidentes cubano e venezuelano, Fidel Castro e Hugo Chávez. O deslocamento de marines para a vizinha República Dominicana, em 10 de fevereiro (como noticiou o Brasil de Fato na edição 155), seria um meio de dissuadir o presidente haitiano de estreitar relações com esses governos. Em Porto Príncipe, capital haitiana, a eleição de Préval, oficializada dez dias após o pleito (leia reportagem abaixo), gera uma onda de esperança. Durante três dias, houve comemorações na cidade.
O motivo de tantos elogios, preocupações e sonhos está superdimensionado. Nem Préval tem pulso para mudar os rumos do país, nem o Estado haitiano, que ele recebe, tem recursos para tal. A avaliação é de alguém que conhece bem o novo presidente: Rénald Clérismé, funcionário do Ministério das Relações Exteriores. Ambos atuaram juntos na luta contra a ditadura de Jean-Claude Duvalier (1971-1986) e, no primeiro mandato do próprio Préval (1996-2000), quando Clérismé foi nomeado embaixador do Haiti na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o diplomata avalia que o novo governo não tem as condições para enfrentar as dificuldades sociais e econômicas do Haiti. O país é o mais pobre das Américas: 82% dos 7,66 milhões de haitianos vivem abaixo do índice da pobreza, de acordo com estatísticas oficiais. O analfabetismo atinge 52,9% da população e a esperança de vida não passa dos 51 anos. O governo interino, organizado pelas instituições internacionais que colaboram com a intervenção militar, é questionado pela população.
SEM PROGRAMA
Durante a campanha, Préval não apresentou um programa político. Em relação à ocupação do país, comandada desde junho de 2004 pela Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), não se pronunciou. "Ele disse que é preciso garantir a paz e a ordem no país. Não falou como isso seria feito. Em conversas particulares, afirmou que é contra a criação de um Exército nacional, que o país não teria como custear", relata Clérismé.
Sobre a questão agrária, em um país onde 80% da população é camponesa, Préval também não se comprometeu. "O desenvolvimento da zona rural, devastada, depende da ajuda internacional. As grandes potências prometeram enviar dinheiro, mas este nunca veio, nem virá", avalia o diplomata.
Se falta programa, sobram desafios. Em suma, criar um Estado. Construindo políticas soberanas, principalmente econômica e social. Controlando a criminalidade, galopante em Porto Príncipe. Lutando contra a corrupção, disseminada em um país onde reina a impunidade. Desvencilhando-se, como puder do jugo das grandes potências, especialmente Canadá, Estados Unidos e França.
FRATURA POLÍTICA
Clérismé considera que Préval vai estar sob muita pressão. Em primeiro, de seu antigo mentor e expresidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, exilado desde 2004 na África do Sul. "Aristide vai tentar, por todos os meios, interferir na administração de Préval, para que este o aceite de volta ao Haiti", diz. Em suas declarações, o novo presidente não se pronunciou sobre seu antigo mentor, apenas disse que todo haitiano é livre de ir e vir do país. O segundo desafio do novo presidente é a comunidade internacional, segundo Clérismé, pois vai pressionar para que ele siga a linha política que as grandes potências querem.
Por fim, Préval vai ter que lidar com um racha nos movimentos sociais haitianos, analisa Clérismé. Durante a campanha eleitoral, a principal organização do país, o Movimento Camponês de Papay (MPP), se colocou contra ele, pois considerou que ele defenderia Aristide. Outras criticaram a posição do MPP e romperam plataformas conjuntas que haviam criado, dizendo que era preciso manter uma aproximação crítica em relação ao novo presidente. Para o diplomata, a fratura social enfraquece ainda mais Préval.















