PETRÓLEO: Bolívia revê atuação da Petrobras
Igor Ojeda
da Redação
Depois da vitória de Evo Morales na Bolívia, muito se especulou no Brasil que o novo governo iria promover a nacionalização das reservas e das refinarias de petróleo e gás hoje controladas pela estatal brasileira Petrobras. A imprensa comercial e os analistas do mercado financeiro - em sintonia com o interesse dos acionistas privados da empresa - defenderam o fim dos investimentos em solo boliviano.
De princípio, ficou evidente o desrespeito ao discurso de defesa de soberania do país andino. Os bolivianos reclamam que muito pouco é revertido para o bem da população mais pobre da América do Sul, que não usufrui da riqueza natural de seu próprio país. Essa crítica é endossada pelo fi lósofo Alberto Buela, vice-presidente do Centro de Estudios Estratégicos Suramericanos (CEES), da Argentina, que não vê a atuação da Petrobras de forma tão positiva. Segundo ele, a companhia "ajuda a manter o status quo boliviano", embora esteja em melhor posição que a empresa privada hispano-argentina Repsol, por não haver nenhuma denúncia pública de fraude contra ela.
Buela duvida da capacidade de Evo Morales em se manter firme em relação à questão dos hidrocarbonetos. Para ele, apesar de o presidente boliviano aparecer publicamente contra os interesses brasileiros na área, substancialmente fará o que o Itamaraty quiser. E faz uma provocação: "O dia em que o pedágio da estrada que une Corumbá (no Mato Grosso do Sul) com Santa Cruz de la Sierra (na Bolívia) custar cinco dólares, aí poderemos dizer que Evo tem uma política independente do Itamaraty".
Já Fernando Siqueira, diretor de Comunicação da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), não avalia a atuação da estatal da mesma forma, embora ressalve que a soberania boliviana deva ser respeitada. Na opinião de Siqueira, enquanto a Petrobras seguir sendo uma empresa estatal, é positivo para a Bolívia que permaneça lá, por ser "muito mais séria" que as demais companhias petroleiras que atuam no país, como as "predatórias" Shell, Chevron, Total e Repsol. Por outro lado, para o Brasil, seria muito importante para a manutenção da grande fonte boliviana de gás natural, combustível estratégico para as necessidades nacionais. Siqueira prevê que a situação da estatal brasileira na Bolívia não deve se alterar de forma significativa. "A Bolívia praticamente só tem como comprador de gás o Brasil. Não se pode fechar um mercado desse" diz.
NOVO ACORDO
Antes de tomar posse, no dia 22 de janeiro, Morales afirmou, em reunião com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que a Petrobras seria sócia da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), estatal boliviana. De fato, no dia 10 de fevereiro, a Petrobras anunciou que, até o fi nal do mesmo mês, as empresas dos dois países, o Ministério de Minas e Energia, do Brasil, e o Ministério do Hidrocarbonetos da Bolívia assinariam em La Paz um "Memorando de Entendimentos visando à associação da Petrobras e da YPFB". O comunicado ressaltava a possibilidade de cooperação ou associação em sete áreas, entre elas a de refi no do gás natural, exploração e produção de petróleo e gás e a capacitação tecnológica de trabalhadores bolivianos.
Embora a assessoria de imprensa da Petrobras afirme, em comunicado do dia 14 de fevereiro - veiculado para esclarecer informações divulgadas na imprensa sobre as negociações entre Brasil e Bolívia - que as decisões da companhia levam em conta "critérios exclusivamente empresariais", Fernando Siqueira, da Aepet, vê o dedo do Itamaraty em suas ações. "Apesar de o Lula falhar em muitos pontos, o saldo na política externa é positivo. O interesse na Bolívia é também político e muito bom. Dentro desses termos, haverá negócio bom para os dois lados", diz.
Já o argentino Alberto Buela não crê nessa tese. Para ele, a atuação Petrobras não traz grandes benefícios para o povo boliviano. "O conceito dessas grandes companhias de petróleo (Petrobras, Shell, Repsol, Total, etc) é o de não pagar pelo petróleo. A Total francesa tem uma plataforma próxima da ilha dos Estados da Terra do Fogo, onde há 30 anos extrai petróleo que carrega diretamente em seus barcos e não paga nada, absolutamente nada aos argentinos", denuncia.
da Redação
Depois da vitória de Evo Morales na Bolívia, muito se especulou no Brasil que o novo governo iria promover a nacionalização das reservas e das refinarias de petróleo e gás hoje controladas pela estatal brasileira Petrobras. A imprensa comercial e os analistas do mercado financeiro - em sintonia com o interesse dos acionistas privados da empresa - defenderam o fim dos investimentos em solo boliviano.
De princípio, ficou evidente o desrespeito ao discurso de defesa de soberania do país andino. Os bolivianos reclamam que muito pouco é revertido para o bem da população mais pobre da América do Sul, que não usufrui da riqueza natural de seu próprio país. Essa crítica é endossada pelo fi lósofo Alberto Buela, vice-presidente do Centro de Estudios Estratégicos Suramericanos (CEES), da Argentina, que não vê a atuação da Petrobras de forma tão positiva. Segundo ele, a companhia "ajuda a manter o status quo boliviano", embora esteja em melhor posição que a empresa privada hispano-argentina Repsol, por não haver nenhuma denúncia pública de fraude contra ela.
Buela duvida da capacidade de Evo Morales em se manter firme em relação à questão dos hidrocarbonetos. Para ele, apesar de o presidente boliviano aparecer publicamente contra os interesses brasileiros na área, substancialmente fará o que o Itamaraty quiser. E faz uma provocação: "O dia em que o pedágio da estrada que une Corumbá (no Mato Grosso do Sul) com Santa Cruz de la Sierra (na Bolívia) custar cinco dólares, aí poderemos dizer que Evo tem uma política independente do Itamaraty".
Já Fernando Siqueira, diretor de Comunicação da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), não avalia a atuação da estatal da mesma forma, embora ressalve que a soberania boliviana deva ser respeitada. Na opinião de Siqueira, enquanto a Petrobras seguir sendo uma empresa estatal, é positivo para a Bolívia que permaneça lá, por ser "muito mais séria" que as demais companhias petroleiras que atuam no país, como as "predatórias" Shell, Chevron, Total e Repsol. Por outro lado, para o Brasil, seria muito importante para a manutenção da grande fonte boliviana de gás natural, combustível estratégico para as necessidades nacionais. Siqueira prevê que a situação da estatal brasileira na Bolívia não deve se alterar de forma significativa. "A Bolívia praticamente só tem como comprador de gás o Brasil. Não se pode fechar um mercado desse" diz.
NOVO ACORDO
Antes de tomar posse, no dia 22 de janeiro, Morales afirmou, em reunião com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que a Petrobras seria sócia da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), estatal boliviana. De fato, no dia 10 de fevereiro, a Petrobras anunciou que, até o fi nal do mesmo mês, as empresas dos dois países, o Ministério de Minas e Energia, do Brasil, e o Ministério do Hidrocarbonetos da Bolívia assinariam em La Paz um "Memorando de Entendimentos visando à associação da Petrobras e da YPFB". O comunicado ressaltava a possibilidade de cooperação ou associação em sete áreas, entre elas a de refi no do gás natural, exploração e produção de petróleo e gás e a capacitação tecnológica de trabalhadores bolivianos.
Embora a assessoria de imprensa da Petrobras afirme, em comunicado do dia 14 de fevereiro - veiculado para esclarecer informações divulgadas na imprensa sobre as negociações entre Brasil e Bolívia - que as decisões da companhia levam em conta "critérios exclusivamente empresariais", Fernando Siqueira, da Aepet, vê o dedo do Itamaraty em suas ações. "Apesar de o Lula falhar em muitos pontos, o saldo na política externa é positivo. O interesse na Bolívia é também político e muito bom. Dentro desses termos, haverá negócio bom para os dois lados", diz.
Já o argentino Alberto Buela não crê nessa tese. Para ele, a atuação Petrobras não traz grandes benefícios para o povo boliviano. "O conceito dessas grandes companhias de petróleo (Petrobras, Shell, Repsol, Total, etc) é o de não pagar pelo petróleo. A Total francesa tem uma plataforma próxima da ilha dos Estados da Terra do Fogo, onde há 30 anos extrai petróleo que carrega diretamente em seus barcos e não paga nada, absolutamente nada aos argentinos", denuncia.












