Filha de Raul Castro defende diálogo sobre direitos sexuais na América Latina
Marila Castro, diretora do Centro Cubano de Educação Sexual, defende a troca de informações e experiências entre Brasil e Cuba para combater a exploração sexual de crianças e adolescentes
01/12/2008
Juliana
Cézar Nunes
Agência
Brasil
Convidada especial do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração
Sexual das Crianças e Adolescentes, a diretora do Centro Nacional de Cuba para
Educação Sexual, Mariela Castro, aproveitou a semana no Brasil para
intensificar o diálogo com representantes de governos da América Latina sobre possíveis
trocas de experiência na área de direitos sexuais e da infância.
"Temos várias iniciativas interessantes em curso na região, mas que
ficam isoladas por falta de contato entre os países. Não temos intercâmbio
efetivo com o Brasil, mas queremos mudar isso", disse Mariela, filha do
presidente cubano, Raul Castro, em entrevista.
"Uma comitiva brasileira esteve em Cuba para conhecer nossos
programas e estamos aqui para ampliar esse intercâmbio. Precisamos socializar o
que existe de melhor em cada país para que possamos unir esforços por nossas
crianças. Temos muito pontos e interesses em comum."
No Rio de Janeiro, Mariela visitou projetos sociais com a primeira-dama
Marisa Letícia. Entre eles, o Espaço Convivência, no Rio de Janeiro. Na casa,
crianças e adolescentes que foram vítimas da exploração sexual recebem
assistência e participam de oficinas de circo, teatro e dança.
"É um trabalho muito bonito. Eu vi a cara de bem-estar dos
adolescentes. Eles fazem um teatro musical melhor que Hollywood. Toda a América
Latina tem experiências lindas como essa."
A diretora do Centro Nacional de Cuba para Educação Sexual afirma que a
estratégia adotada no país é envolver as escolas e os meios de comunicação no
enfrentamento do problema. A Federação das Mulheres Cubanas e as organizações
de jovens também têm papel ativo, assim como os Ministérios da Saúde e da
Educação. Cuba possui ainda uma Comissão Nacional de Prevenção à Violência
Intrafamiliar e um Centro de Proteção para as Crianças, instituições voltadas
para a prevenção do abuso sexual e o atendimento às crianças vítimas dessa
violência.
Para combater a pedofilia, o país aceitou inclusive colaborar com a
Interpol e a polícia britânica Scotland Yard. "Enviamos dados e recebemos
alertas quando turistas pedófilos estão a caminho. Também colaboramos na luta
contra o tráfico de pessoas, já que muitas máfias mexicanas e norte-americanas
atuam em Cuba, se valendo das facilidades que o governo dos Estados Unidos dão
a quem sai da ilha", conta Mariela.
De acordo com ela, o bloqueio norte-americano dificulta o acesso dos
cubanos a preservativos ou mesmo remédios contra a impotência. O país recebe
doações que não seriam suficientes para as necessidades da população. "A
revolução possibilitou que fossem criadas uma série de políticas de proteção
das crianças e emancipação das mulheres. Nossas limitações não estão nas leis
ou nos recursos humanos. Temos dificuldades financeiras que são conseqüência do
bloqueio."
Mariela Castro defende que os países latino-americanos avancem no combate
à homofobia e nas leis sobre aborto. De acordo com ela, a homofobia e o racismo
ainda estão presentes em Cuba, mas são combatidos com leis severas e
conscientização popular, que ajuda no controle social. Já o aborto é
regulamentado e oferecido nas clínicas públicas.
"Cuba é um estado laico. A igreja participa, mas não decide. Vamos
dialogar e seguir dialogando com a igreja. Mas cada um que faça seu trabalho e
a população decide por onde seguir", ressalta Mariela.
Segundo ela, antes da revolução socialista, o aborto era realizado apenas
em clínicas privadas cubanas e chegou a ser a principal causa de morte de
mulheres.
"Os homens não podem seguir decidindo sobre nossos corpos. Senão
também vamos decidir sobre o corpo deles e dizer: façam todos vasectomia,
obrigatoriamente. Tirem a próstata para não ter câncer de próstata. Isso é o
mesmo que decidir que as mulheres não podem recorrer ao aborto. É uma violação
dos direitos das mulheres e dos direitos humanos. O povo latino-americano
precisa se livrar dessa opressão."
Sobre o futuro de Cuba, a filha de Raul Castro diz que o país vai seguir
em seu caminho, buscando um "socialismo melhor e mais participativo, que
leve à emancipação do ser humano". "Mas uma coisa está clara: não
voltaremos atrás, não voltaremos ao capitalismo. Seguiremos sendo um país
soberano", ressalta Mariela, que fala com otimismo sobre o próximo
presidente norte-americano.
"O Obama é um milagre maravilhoso para o povo norte-americano e para
o mundo. Uma mudança de paradigma. Um negro lindo e inteligente no poder. Tem
boas intenções, mas vai ter dificuldade para governar. Se ele conseguir acabar
com o bloqueio, será um milagre. Oxalá! Se eu fosse católica, rezaria por esse
milagre. Meu pai se mantém calado, não disse nada. Está observando."















