Em debate, a conjuntura mundial
Divididas em quatro eixos – ambiental, social, econômico e político –, discussões sobre o atual cenário mostraram unidade
03/02/2010
Leandro Uchoas
de Porto Alegre (RS)
Durante
o Seminário Internacional “10 Anos Depois: Desafios e propostas
para um outro mundo possível”, a discussão “A Conjuntura
Mundial Hoje” mobilizou diversos militantes na discussões de
quatro eixos da análise: ambiental, social, econômica e política.
As quatro mesas formadas para discutir os eixos contaram com
intervenções de um rico e heterogêneo conjunto de debatedores, do
sem-terra Gilmar Mauro ao sociólogo Emir Sader, e da feminista Nalu
Farias ao ministro da Economia Solidária Paul Singer. O que se viu
foi certa unidade de pensamento perpassando as mesas. Temas como a
crise socioeconômica atual, a necessidade de se aliar
desenvolvimento e preservação ambiental, o desastre haitiano e
avaliações sobre o papel do Fórum Social Mundial (FSM) perpassaram
todas as contribuições.
O tema ambiental ganhou a mesma dimensão que o econômico, o político e o social. Dimensão que há dez anos, no primeiro FSM, ele não tinha. Também ultrapassou as fronteiras a ele impostas pela metodologia empregada. O cuidado com o meio-ambiente foi discutido por inúmeros palestrantes das quatro mesas. Em sua mesa específica, o debate foi intenso. Houve unidade quanto à necessidade de se colocar em marcha um outro modelo de desenvolvimento, menos predatório. A decepção com a Conferência de Copenhague (COP-15) também foi uníssona.
O diagnóstico foi claro. A crise ambiental foi causada pelo modo de produção e consumo capitalistas e não há como resolvê-la se não houver uma ruptura com o atual sistema, que mantém uma relação mercantilista com a natureza, incluindo a exploração do homem. Também foram unânimes as posições contrárias ao mercado de carbono e o reconhecimento o papel das comunidades tradicionais na proteção ao meio-ambiente. A polêmica ficou em torno do papel das negociações internacionais sobre o clima conduzidas pela ONU.
Nas discussões sobre a conjuntura econômica, dois principais consensos. A luta por outro modelo econômico precisa ter, necessariamente, um viés anticapitalista; e não é mais possível pensar em um modelo de desenvolvimento que não contemple radicalmente a questão ambiental. Nas ricas intervenções, muita crítica à postura dos países diante da crise socioeconômica mundial e à corriqueira interpretação dada a ela pelos economistas. As críticas aos posicionamentos de enfrentamento da crise não se limitaram à direita. O professor da City Universtity de Nova York, David Harvey, criticou a obsessão por crescimento econômico mesmo entre os setores progressistas. “Fica cada vez mais difícil encontrar como e para onde crescer. Temos que encontrar uma alternativa ao capitalismo”, disse.
À frente da Secretaria Especial de Economia Solidária há sete anos, Paul Singer destacou os avanços incríveis da forma alternativa de mercado. A economia solidária já representaria 1% dos setores econômicos e os resultados das políticas estatais estariam mudando a forma de comunidades inteiras se relacionar. Segundo o economista, as taxas de crescimento da economia solidária sobem de 20% a 30% e isso não se deve às políticas governamentais. Seriam a prova de que outras formas de gerir a economia dão certo.
Fracasso de Obama
A mesa de avaliação sobre a conjuntura política começou com um vídeo de Jamal Juma, da Palestinian Grassrrots Anti-Apartheid Wall Campaign. Juma clamava os palestinos a “organizar um trabalho coletivo para por fim à ocupação” de Israel. O estadunidense Michael Leon Guerrero lamentou a administração Obama, que teria apresentado “resultados desastrosos”. A atuação de seu país na COP-15 e a militarização da “ajuda humanitária” ao Haiti simbolizariam o fracasso do governo atual dos Estados Unidos.
Nalu Farias, da Marcha Mundial das Mulheres, fez referência à crise e atuação dos movimentos sociais de denunciar o fracasso do sistema capitalista. Entretanto, também ressaltou a enorme capacidade que o capitalismo tem de se adaptar. Ela celebrou o momento positivo da América Latina, com a ascensão de governos progressistas em diversos países. “Há um crescimento dos movimentos de resistência ao neoliberalismo e ao colonialismo”, disse. O boliviano Gustavo Soto comemorou o governo de Evo Morales como “a esperança indígena do continente” e historicizou as lutas antineoliberais no país na última década. E o francês Bernard Cassen avaliou que os Estados Unidos não têm, hoje, o mesmo poder de há 10 anos, no início do FSM.
A avaliação da conjuntura social foi, talvez, a mais concorrida das quatro exposições. Os expositores apontaram as particularidades e localidades da crise mundial e as possíveis alternativas. A análise de Emir Sader, secretário executivo do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), talvez sintetiza os rumos dos debates. Ele analisou a conjuntura apontando três eixos de leitura da crise: a passagem de um mundo bipolar para um multipolar; a passagem de uma fase de capitalismo expansivo para uma de capitalismo recessivo; e a passagem de um modelo de bem-estar regulado para um modelo neoliberal, desregulado.