Deputados querem barrar mudança de sexo pelo SUS
Caso seja aprovado pela Câmara e pelo Senado, o decreto pode frustrar a expectativa das 500 pessoas que, segundo o Coletivo Nacional de Transexuais, aguardam na fila da rede pública para trocar de sexo.
da Redação
Fórum
O deputado quer suspender a Portaria 1.707, publicada em agosto deste ano
pelo Ministério da Saúde, que prevê a inclusão desse tipo de cirurgia entre os
procedimentos custeados pelo SUS. Caso seja aprovado pela Câmara e pelo Senado,
o decreto pode frustrar a expectativa das 500 pessoas que, segundo o Coletivo
Nacional de Transexuais, aguardam na fila da rede pública para trocar de sexo.
“Ora, se o SUS não tem condições de atender as mulheres durante o
pré-natal, se não tem condições de fazer cirurgias, se não tem condições de
atender pacientes oncológicos, como poderá fazer cirurgia para mudança de sexo,
em detrimento daqueles que não têm condições de viver nem de sobreviver?”,
questionou Martini, integrante da Comissão de Seguridade Social e Família da
Câmara.
Um dos principais representantes no Congresso do movimento Renovação
Carismática, da Igreja Católica, Martini já articula o apoio da Frente
Parlamentar Evangélica para derrubar a norma, o que deve deflagrar mais um
embate entre religiosos e homossexuais no Parlamento, a exemplo do que já
ocorre na discussão do projeto de lei que torna crime a discriminação por orientação
sexual.
O presidente da Frente Parlamentar Evangélica da Câmara, João Campos
(PSDB-GO), condena veementemente a possibilidade de mudança de sexo por meio de
procedimento bancado pelos SUS. “Isso é um absurdo. O SUS não está tendo
dinheiro para financiar políticas públicas curativas, ou de combate a
epidemias, vai ter dinheiro para atender a questões pontuais, individuais, de
alguns cidadãos brasileiros?”, protestou Campos, para quem a coletividade será
desrespeitada se esse tipo de cirurgia for realizado pelo SUS.
“Quantas pessoas estão esperando na fila para fazer cirurgia de câncer de
mama, por exemplo, e não conseguem? Isso é dissenso, uma falta de juízo, uma
excrescência”, completou o deputado, acrescentando que as “conveniências” de
determinados cidadãos não pode ser bancada pelo Estado sem que esteja
caracterizada a necessidade. “Quem quiser [fazer a cirurgia de troca de sexo]
que pague de seu próprio bolso. Além disso, homossexualidade não é doença.”
João Campos afirma que, se todas as reivindicações dos grupos
homossexuais e congêneres fossem atendidas, o país viverá “uma ditadura dos
homossexuais”. “Se todas as demandas dos gays do país têm de ser consideradas
legais, tudo o que for contrário a elas será visto como irregularidade”, declarou
o tucano.
Já o presidente do grupo Estruturação (grupo LGBT – Lésbicas, Gays,
Bissexuais e Transgêneros – de Brasília), Milton Santos, avalia que a objeção
dos deputados revela mais uma preocupação religiosa e falta de conhecimento do
que apreço pelo interesse público.
“Acho que alguns parlamentares se baseiam em fundamentos bíblicos,
religiosos, para questionar direitos conquistados pelo grupo LGBT”, criticou
Milton, dizendo que já enfrentou situações semelhantes envolvendo
congressistas. “Em geral, o Congresso tem um olhar para a população não se
baseando no que a Constituição rege. Alguns parlamentares não se preocupam em
se informar a respeito de certos assuntos.”
Religião
Miguel
Martini contesta que sua iniciativa seja baseada em questões religiosas.
Segundo o deputado, motivos não faltam para barrar a realização de cirurgias de
mudança de sexo pelo SUS.
“É um motivo lógico, de um claro bom senso, e diria que quase ético. Na
medida em que o governo está buscando recursos para a saúde, com vários
problemas no setor, uma coisa dessas é uma ofensa à população”, disse o líder
do PHS, apelando à realidade social para reforçar sua argumentação. “Eu presido
uma entidade oncológica. As pessoas com câncer não conseguem fazer as cirurgias
previstas no SUS”, acrescentou.
Outra razão apontada por Martini é o custo da cirurgia de mudança de sexo
(cerca de R$ 1,5 mil), além da suposta falta de premência do problema. “É uma
coisa caríssima, um processo muito complexo. E quem é homossexual não tem risco
de morte porque é homossexual”, alegou o deputado, dizendo ser até
compreensível que países desenvolvidos, com eficiente estrutura de saúde
pública, ofereçam o serviço aos cidadãos.
“Mas é inaceitável em um país com os problemas do Brasil. Isso [a
operação] é um luxo, uma agressão à sociedade. Isso é um acinte contra o povo
brasileiro, contra o cidadão que não tem dinheiro, não tem atendimento, está
sofrendo dor, muitos estão morrendo nas filas do SUS”, arrematou o deputado,
acrescentando que o procedimento contraria o artigo 129 do Código Penal
Brasileiro – o Decreto Lei n.º 2.848, que define pena de detenção de três meses
a um ano para quem “ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem”.
Além disso, argumenta Martini, o segundo parágrafo do artigo 129 também
estabelece que a pena é de “reclusão de dois a oito anos” se a lesão corporal é
resultado, entre outras hipóteses, de “perda ou inutilização de membro, sentido
ou função”.
Segundo a assessoria do ministério da Saúde, o argumento de Miguel
Martini é questionavel. “Não há motivo para que o Estado não assista pessoas
que sofrem física e emocionalmente, quando o assunto é a necessidade em saúde”,
argumenta o ministério. Além disso, segundo a assessoria, o próprio Conselho Federal
de Medicina reconhece que a cirurgia de mudança de sexo não é mais vista como
procedimento experimental, e sim como prática clínica.















