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Temendo perder hegemonia, Chávez converte eleições em plebiscito

by Admin last modified 2008-11-18 10:50

Presidente assume campanha eleitoral para recuperar votos que foram perdidos no referendo constitucional em dezembro de 2007, avalia analista


 

18/11/2008

 

Manuela Sisa

de Caracas ( Venezuela)

 

A absoluta hegemonia dos aliados do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, à frente dos governos estaduais tende a ser reduzida nas próximas eleições regionais, que serão realizadas dia 23 de novembro.

Na tentativa de dirimir novas derrotas que poderiam fortalecer os grupos opositores a seu governo, o presidente venezuelano optou por repetir o método utilizado em eleições anteriores: incrementar a radicalização da retórica eleitoral para alcançar um maior nível de polarização entre chavistas e opositores.

"Se vocês permitirem que a oligarquia regresse ao governo, vou acabar tendo de pegar os tanques da brigada blindada para defender o governo revolucionário e o povo", afirmou o presidente, em comício dia 8 de novembro, no Estado Carabobo, noroeste do país, onde as pesquisas apontam uma derrota do candidato do governo.

Futuro da pátria

Na avaliação de Luis Vicente León, diretor da consultoria Datanalisis, empresa identificada com a oposição, o presidente venezuelano pretende transformar as eleições em um plebiscito, no qual o que estaria em jogo seria o voto a favor ou contra "a revolução bolivariana".

"O presidente quer reforçar os espaços eleitorais onde seus candidatos não puderam superar seus adversários, e assim converte a eleição em um plebiscito", disse Leon, durante uma coletiva de imprensa, realizada em Caracas.

Em um recente ato de campanha, Chávez sinalizou neste sentido, ao afirmar que o que está em jogo é o "futuro da pátria". "Em 23 de novembro [o que] está em jogo o futuro da revolução, o futuro do socialismo, o futuro da Venezuela, o futuro do governo revolucionário, e também o futuro de Hugo Chávez. Está em jogo tudo isso”, defendeu o presidente venezuelano.

Para Vicente León, ao colocar "a revolução" em primeira ordem de importância, Chávez evita o debate sobre os problemas cotidianos, como insegurança, coleta de lixo ou educação, temas característicos deste tipo de pleito. 

Presidente "marqueteiro"

Chávez assumiu a campanha como se tratasse de uma disputa à presidência. Desde o início de outubro, o mandatário realiza comícios quase que diários ao lado dos candidatos do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

O presidente discursa em nome dos candidatos, avalia a mobilização de seus simpatizantes para garantir votos e ataca os adversários, dentre os quais estão ex-aliados do governo.

A oposição se queixa, argumentando que Chávez utiliza atos públicos para fazer campanha eleitoral de seus aliados, mas, por enquanto, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) não emitiu nenhum parecer contrariando a atuação do governante.

Para o sociólogo Javier Biardeau, professor da Universidade Central da Venezuela, ao assumir a campanha, o presidente venezuelano pretende  recuperar o voto dos simpatizantes do governo que foram perdidos no referendo da reforma constitucional realizada em dezembro de 2007, cuja derrota ainda é ressentida pelo governo.

A personalização da "revolução bolivariana" na figura do presidente, porém, não é algo novo. "Desde o referendo revogatório de 2004 esse tem sido o estilo de condução política dentro do processo: concentrar na figura do Chávez a mobilização da base de apoio do governo", analisa Biardeau.

De acordo com o sociólogo, a concentração da liderança e capacidade de mobilização em Chávez reforça um processo que denomina como "cesarismo revolucionário" (em referência ao estadista Júlio César, que ao tornar-se imperador de Roma, passou a exercer poder quase absoluto). "É negativo que depois de dez anos de processo revolucionário não exista uma liderança coletiva da revolução", avalia Biardeau. Depois de quase 10 anos no governo, Chávez mantém um índice de popularidade de 54%.

Adversários na cadeia

O governador do Estado de Zulia, Manuel Rosales, ex-candidato presidencial, foi convertido por Chávez em um dos principais adversários do governo nesta campanha eleitoral. Em um comício, o presidente venezuelano denunciou o enriquecimento ilícito de Rosales à frente do governo de Zulia e ameaçou levá-lo à prisão.

O Executivo afirma que o governador opositor, que agora se candidata à prefeitura da capital deste Estado, desde que assumiu o governo, comprou pelo menos sete fazendas, que teriam sido adquiridas a partir do desvio do dinheiro público. 

Dias depois da acusação pública, a denúncia passou a fazer parte da programação do canal oficial VTV, onde foram transmitidos o áudio de ligações telefônicas entre Rosales e seus aliados, nas quais trata da negociação de suas fazendas e da compra de cabeças de gado. Rosales nega as acusações. "Que venham me investigar", desafiou.

Recentemente, Chávez atacou um ex-aliado, Ramón Martínez, governador do Estado Sucre. O mandatário disse que Martinez pretende desrespeitar o resultado da eleição e ameaçou prendê-lo. "Vai terminar na prisão este asqueroso, traidor, mafioso!", afirmou Chávez.  Sucre é um dos oito Estados em que o chavismo poderia perder as eleições.

Velhos métodos

Em Petare, a maior favela da América Latina, localizada no município Sucre, zona leste de Caracas, cerca de seis mil famílias receberam do atual prefeito chavista, José Vicente Ávalos, máquinas de lavar roupa, materiais de construção, colchões, entre outros utensílios domésticos. Lá, o PSUV disputa a prefeitura do município mais povoado da cidade, onde o governo perdeu o referendo da reforma constitucional.

Na avaliação de Javier Biardeau, a reprodução de métodos clientelistas na campanha eleitoral revela uma ausência de debate político nas eleições regionais. "O que há é campanha negativa dos dois lados, nenhum dos dois pólos esteve interessado em realizar um debate programático. A campanha eleitoral se centraliza no pragmatismo para a manutenção do poder e deixa a um segundo plano um programa político- ideológico", conclui.

O resultado da disputa, acredita Biardeau, será de surpresa para ambos lados: "O governo aposta em derrotar a oposição e recuperar os espaços perdidos no referendo de dezembro. Já a oposição poderá vencer em menos Estados do que acha que pode ganhar".

De acordo com pesquisas de opinião, o governo poderia perder entre cinco a sete Estados do país. O chavismo governa atualmente 21 dos 23 Estados, além da capital Caracas.