Seja marginal, seja herói
Movimento de vanguarda iniciado no final dos anos 60 volta a ser exibido e discutido pelo público
09/06/2009
Aldo Gama
da Redação
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Montagem disjuntiva
Como parte do cenário do show que apresentavam na casa noturna Sucata, no Rio de Janeiro, em 1968, os tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes utilizavam um dos trabalhos do artista plástico Hélio Oiticica, cuja obra Tropicália dera nome ao movimento musical. No fundo do palco, uma bandeira trazia a inscrição “seja marginal, seja herói”, uma referência ao bandido carioca Cara de Cavalo, que havia sido caçado e morto pela polícia.
No cinema, esse espírito que desafiava a ordem social vigente encontrou sua expressão maior em um grupo de jovens que incorporaram à linguagem cinematográfica referências diversas, como história em quadrinhos e ícones da cultura de massa, e um aprofundamento da pesquisa estética no movimento que ficou conhecido como Cinema Marginal.
Restaurados pela Cinemateca Brasileira, alguns desses filmes vêm sendo redescobertos em festivais no Brasil e pelo mundo. Parte dessas películas está na Coleção Cinema Marginal, da Heco Produções e Lume Filmes, que reúne 38 trabalhos, muitos deles não lançados comercialmente.
Quem tiver de sapato não sobra
Em 1967, Ozualdo Candeias lançou A Margem, seu primeiro longa metragem. Baseado em fatos reais publicados em jornais da época, o filme conta histórias do cotidiano da população pobre que vivia às margens do Rio Tietê, em São Paulo. Na obra, as experimentações do estreante suplantavam apuros técnicos, mas inauguraram uma maneira de encarar a linguagem cinematográfica que influenciou uma série de diretores, sendo por isso considerado o ponto de partida do Cinema Marginal.
O Bandido da Luz Vermelha, dirigido por Rogério Sganzerla em 1968, é, talvez, o trabalho mais conhecido do movimento, tendo conquistado reconhecimento de público e crítica. Outras películas, como A Mulher de Todos (de Sganzerla) e As Libertinas (dividido em três episódios dirigidos por Carlos Reichenbach, Antonio Lima e João Callegaro) também fizeram sucesso comercial.
Para alguns pesquisadores, mais do que inspirado pelo tropicalismo, o Cinema Marginal é a versão cinematográfica do movimento, dialogando com a cultura popular como o cinema brasileiro ainda não havia feito. Em O Bandido da Luz Vermelha, por exemplo, há uma explosão de referências que, na época, foi motivo de censura e conflito, inclusive com os defensores do Cinema Novo. “O terceiro mundo vai explodir. Quem tiver de sapato não sobra”, grita um dos personagens alucinados do filme, seguindo o raciocínio do próprio bandido que, a certa altura pondera: “quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”. E ainda faz cinema de vanguarda, como explica o pesquisador Arthur Autran, na entrevista que segue.
Brasil de Fato – Qual a importância do trabalho de restauração e relançamento dos filmes que fazem parte do Cinema Marginal?
Arthur Autran – São obras muito importantes dentro da filmografia brasileira e às quais nós tínhamos pouquíssimo acesso, ou porque as cópias em 35mm circulam muito pouco –ou não circulam, praticamente –ou porque esses filmes são muito pouco exibidos na televisão aberta, embora alguns tenham sido exibidos uma ou outra vez no Canal Brasil. E a maioria também não havia sido lançada em VHS. Então isso vai ampliar a circulação de filmes importantes para o cinema brasileiro.
Alguns diretores rejeitam o termo Cinema Marginal? Haveria alguma explicação sob o ponto de vista de um movimento?
Sim, haveria. Ficou conhecido como Cinema Marginal um conjunto de filmes muito heterogêneo feito, mais ou menos, entre 68 e 73. Alguns recusam esse termo, e é compreensível, porque parece que eles queriam se marginalizar, que não queriam que seus filmes fossem exibidos ou que filmassem em más condições. Por isso preferem outros termos como Cinema de Invenção –que é o título de um livro importante sobre o assunto escrito pelo Jairo Ferreira –, Cinema Experimental, Cinema de Vanguarda. Mas, do ponto de vista historiográfico, o termo mais convencionado é Cinema Marginal.
Seja marginal, seja herói. O movimento se relacionava com a Tropicália?
Com certeza. Havia no final dos anos 60 todo um movimento que via no marginal uma figura romantizada, porque recusava a sociedade como ela se apresentava. Um exemplo é a obra do Hélio Oiticica, baseada no assassinato do bandido Cara de Cavalo, de onde sai esse lema. Mas no campo cinematográfico esse epíteto de "marginal" provocou algumas incompreensões. Há por exemplo toda a ironia do Glauber Rocha ao chamar o trabalho desses diretores de Udigrudi e não Underground.
Mas o movimento se relacionava com o tropicalismo por também ter uma apreensão mais ampla da cultura, absorver os ícones e dialogar com a cultura de massa, exatamente como a tropicália. E existe também uma elaboração estética muito sofisticada. O humor, o deboche, a ironia, uma reação contra o conservadorismo social reinante no Brasil na época e uma certa descrença com relação à política institucionalizada.
Além dessa identificação houve alguma colaboração mais efetiva entre eles?
Nas artes plásticas, por exemplo, o Hélio Oiticica tem toda uma colaboração com o Neville D´Almeida. Já as músicas, algumas são aproveitadas nos filmes e, por sua vez, alguns filmes são citados, explicitamente ou não, em algumas músicas.
Essas obras se contrapunham ao Cinema Novo?
O que havia era uma ruptura. Não exatamente geracional, porque tinham todos uma idade próxima, mas o Cinema Marginal entendia que o Cinema Novo havia abandonado a pesquisa estética em nome de uma tentativa de conquistar um público maior, principalmente na sua segunda fase, a partir de 67 ou 68. Eu acho isso discutível, mas era o entendimento que os integrantes do Cinema Marginal tinham.
O que levava um filme a ser classificado como Cinema Marginal?
Características estéticas muito gerais, mas principalmente o diálogo com as vanguardas cinematográficas de então, a busca por experimentações narrativas, a utilização de procedimentos inovadores, como uma montagem disjuntiva, interpretações não naturalistas dos atores, mas como é um movimento muito heterogêneo, muda muito de filme para filme. O Andrea Tonacci, de Bang Bang, por exemplo, é um diretor de um rigor estético impressionante, com seus enquadramentos, montagem. Já diretores como o Sganzerla trabalham sem tanto preciosismo com o movimento de câmera.
Na época, os cineastas se viam como parte de um movimento?
Sim. Havia um grupo que expressava determinadas idéias estéticas, políticas, uma posição frente ao cinema. De aprofundar a linguagem cinematográfica, de debatê-la.
Era algo regionalizado, como Rio e São Paulo?
Na verdade existiam quatro grupos de produção. Os principais no Rio e em São Paulo, mas também havia um grupo em Salvador, onde estava o André Luiz Oliveira (Meteorango Kid, o Herói Intergalático, de 1969), e em Belo Horizonte.
Quais são os diretores mais emblemáticos do movimento?
Essas escolhas são sempre complicadas, mas podemos citar o Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Andrea Tonacci e Carlos Reichenbach.
É possível estabelecer um momento ou um fato responsável pela criação e o término do movimento?
É difícil estabelecer um fato ou momento, mas os diretores se referiam ao filme A Margem, de Ozualdo Candeias, como uma experiência importante, como inspiração estética, por ser uma produção barata, feita com poucos recursos técnicos e em poucos dias.
E o que marca o fim do movimento?
O endurecimento da ditadura militar. Vários desses diretores saem do Brasil, como o Bressane e o Sganzerla. A censura tem uma ação muito forte, proibindo os filmes e não deixando que circulassem, sufocando o movimento.
O Cinema Marginal é político?
Certamente. Não no sentido político partidário ou de engajamento político explícito. Mas é político porque é um movimento que representa situação política que o Brasil vivia então, uma ditadura militar. É uma expressão de oposição a isso. E também uma expressão de outras formas de cultura, de vida e de expressão cinematográfica, além da dominante.
Como esse cinema era financiado?
Na maioria das vezes, os filmes eram feitos com recursos dos próprios diretores, pois eram muito baratos. Outros tiveram investimento dos produtores da Boca do Lixo paulistana. O Bandido da Luz Vermelha, em parte, foi financiado por esses produtores, A Margem também recebeu algum recurso, A Mulher de Todos, financiado pelo Galante (Galante Filmes)...
Além do Bandido, outros filmes do movimento tiveram sucesso comercial?
A Mulher de Todos e As Libertinas também.
Qual o principal legado do Cinema Marginal?
A importância de manter viva a discussão sobre estética cinematográfica, principalmente sobre o experimental dentro dessa estética. São filmes que até hoje surpreendem pela inovação em termos de montagem, de câmera, a relação entre som e imagem. São inspiradores para cineastas que queiram dialogar com o experimental no campo do cinema. Eles ainda são referência nesse sentido.
Quem é: Arthur Autran é pesquisador e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Comentários - 3
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2 Raphael Nogueira - 19-06-2009 - 16:39:58h
Oscar não faz falta!Que fiquemos sem oscar, mas com grandes filmes e com obras que não se acovardam em denunciar nossos problemas que são sérios demais para acharmos que o Plano Real ( FHC) foi o nosso new deal.
1 Fernando Zara - 09-06-2009 - 18:16:49h
A falta de um " OSCAR " para o BRASILPortanto, pegunto ( perguntar não ofende )o seguinte:
Já que temos um rico cenário, ótimos interpretes ( Fernanda Montenegro - Central do Brasil ), bons diretores e produção grandiosa, por que é que o BRASIL não ganhou ainda o " OSCAR " , que é a consagração máxima da cinematografia intenacional, apesar de concorrer todos os anos?
Vejo pelo meu ângulo de observador até fanático que sou por cinema, que na minha humilde opinião, penso que não agrada ao Tio Sam o enrêdo das histórias, pois mostram somente filmes que falam em violência e miséria humana dos brasileiros, mostrando o lado feio de nosso país, em vez de se mostrar o lado bonio do Basil, pois o estrangeio já passou por essa fase que nossa nação está passando, é uma fase de transição como os Estados Unidos após o crack da bolsa em 1929 teve de passar, com filmes de gangsters, prostituição,assalto a bancos,tráfico de drogas e bebida alcoólica, sequestros, crimes violentos, polícia corupta e heróica, miséria de desempregados em busca de sobrevivência, arriscando até a vida para obter algum dinheiro, e, depois desse fase feia, veio o esgae da sociedade, mostrando a recuperação do país, mostrando um certo ogulho disto.
Aqui não: depois do plano real que deu chance aos brasileios melhorarem de vida, começaram a mostrar o pior do Brasil, com filmes sôbre favelas e favelados, miséria humana ( Central do Brasil ), a polícia violenta ( BOPE ),e não dão chance para gente inteligente mostrar o lado bom do Brasil, não é mesmo?
Se não mudar o foco a nossa cinematografia vai demorar a ter um filme premiado com o " OSCAR " , pois só tecnologia cinematográfica sem um tema que agrade o público americano e mundial, vai ser dificil...
Acho que o cinema nacional só irá amadurecer para este fato depois que as "panelas" forem desmanteladas a favor de cineastas que sabem que o que eu digo aqui, é a realidade constatada.
Quem sabe se não vai surgir um gênio nesta área cultural do cinema para destacar as qualidades da cionematografia brasileira dentro do contexto universal do momento atual.Estou torcendo para isso acontecer e abrir o portal para o cinema nacional mostrar seu valor Pelo menos a Vera Cruz tentou!
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