Na Galícia, o berço da língua portuguesa reafirma sua identidade
“Nós galegos levamos séculos na agonia da sobrevivência sob a bota da Espanha”, afirma Carlos Quiroga
da Redação
Sobre o Atlântico Sul, cruzam-se os idiomas espanhol e português, formando as semelhanças genealógicas e históricas entre a América Latina e a Europa. Aproveitando esse ensejo, a ª Bienal Internacional do Livro do Ceará terá como tema a “mestiçagem cultural”. O objetivo é constituir-se em mais um instrumento para impulsionar a integração latino-americana. Curioso é que na Europa, sobretudo na Península Ibérica, a integração entre os povos da região é acompanhada por reticências. O fato da Galícia, localizada no norte da Espanha, ser considerada o berço da língua portuguesa exemplifica isso.
Para o professor de literaturas lusófonas, Carlos Quiroga, da Universidade de Santiago de Compostela, a história galega “é algo dramática, de emigração obrigada, quando a opressão da Espanha, em que cedo ficamos integrados, resultava insustentável”.
Ele conta que, há séculos, todas as administrações do Estado espanhol focaram no idioma como o principal instrumento de anexação da Galícia e mesmo de Portugal ao seu país. Segundo a escritora portuguesa Joana Ruas, de 1580 a 1640, sob o domínio dos reis espanhóis Filipe I e Filipe II, toda a aristocracia do país trocou a sua língua pela castelhana. Hoje, Portugal se vê independente.
Mas, no caso da Galícia, o privilégio de ter originado a língua portuguesa se tornou motivo de perseguição, com ápices no século 20. De acordo com o professor Quiroga, hoje, as forças do chamado “tardofranquismo” acomodaram-se com o advento das novas estruturas democráticas e deixaram “algo de corda solta”, “inclusive na questão da ortografia, o suficiente para parecerem politicamente corretos”.
“E a sociedade galega e as suas elites ainda comportam-se dentro da lógica de uma castração identitária praticada há séculos e que teve o seu último capítulo no 'tardofranquismo', no final da ditadura”, revela Quiroga.
“Galegos imperialistas”
O professor da Universidade de Santiago de Compostela revela que, assim, foi-se educando a maior parte dos galegos, de modo a estarem cada vez menos interessados em conservar as suas características identitárias acima das de pertencimento ao Estado espanhol. “Para que Madri seja a sua capital, para que o acontecido na Costa do Sol, Sul da Espanha, seja o que interesse aqui no Norte”, completa Quiroga. Nessa situação, até ver televisão portuguesa não é consentido pelo governo espanhol; “não sei se pesa o fantasma da Guerra Civil e dos separatismos”, indaga-se.
A ótica “imperialista” de Caetano Veloso na área lingüística ajuda Quiroga a desenvolver seu argumento da manutenção da língua para o fortalecimento da identidade de um povo. “Nós galegos levamos séculos na agonia da sobrevivência sob a bota da Espanha. Por isso sempre gostei tanto daquela canção do Caetano Veloso chamada 'Língua' e até chego a entender aquele verso onde ele diz, referindo-se ao idioma, 'sejamos imperialistas'; sejamos-lo pelo menos para sobreviver”, conclui o galego. (ESL)
<PARA ENTENDER>
Franquismo – Refere-se à ideologia e ao movimento político que sustentou o regime ditatorial fascista liderado na Espanha pelo general Francisco Franco, entre 1936 e 1975.















