Debate sobre integração latino-americana marca abertura da Bienal do Ceará
Em nova etapa da luta popular latino-americana, a ordem é resistir para avançar, apontam palestrantes
Eduardo Sales de Lima
Enviado à Fortaleza (CE)
Na quarta-feira (12), teve início a 8ª. Bienal Internacional Livro do Ceará. O debate de abertura do evento, intitulado “Cultura de Resistência e Mudanças Sociais na América Latina”, contou com a participação do economista João Pedro Stedile, integrante da Via Campesina, da historiadora Adelaide Gonçalves, do paraguaio Ricardo Canese, e de Carlos Bellé, editor da Expressão Popular.
O tema do debate foi a integração e a necessidade de ampliar a mobilização popular no continente americano. João Pedro Stedile tratou do processo histórico da luta de classes na América Latina a partir do século 20.
Apresentando a luta de classes no continente e no Brasil em ciclos, ele apontou períodos de avanços, confrontos e refluxo do projeto de libertação popular. O economista explicou que no início da década de 1930, com a intensificação de revoltas populares, houve o primeiro ciclo de ascensão dos trabalhadores, sobretudo no México, no Brasil e na Argentina.
Luta de classes
Após a Segunda Guerra Mundial até meados da década de 1970, surgiu um novo reascenso popular. “Figuras como Ernesto Che Guevara, Fidel Castro e Salvador Allende foram frutos desse novo movimento na luta de classes”, lembrou Stedile. Como resultado desse ciclo, ele apontou duas revoluções vitoriosas: a cubana e a nicaraguense.
Então, veio o refluxo iniciado por influência das burguesias nacionais e do imperialismo estadunidense. “Nas décadas de 1960-70 houve um período de refluxo devido ao endurecimento das ditaduras da região”, lembrou Stedile.
Ricardo Canese, militante histórico da esquerda paraguaia e hoje principal negociador da questão da hidrelétrica de Itaipu com o governo brasileiro, citou o caso de seu país. Como exemplo emblemático, explicou que Ciudad Del Leste, especializada em importar produtos eletrônicos piratas e livres de impostos, é resultado da união entre a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), o imperialismo estadunidense e a burguesia brasileira, sobretudo a paulista. “A ditadura de Alfredo Stroessner modernizou e aprofundaou os entraves econômicos, além de ter assassinado muitas lideranças das Ligas Agrárias Cristãs do Paraguai na década de 1970” , relatou.
A partir de 1990, com as ditaduras derrotadas em quase todos os países, “o império lançou mão do neoliberalismo instrumentalizado pelas empresas transnacionais. Substituíram a ditadura das armas pelas a de idéias. Essas, passaram a ser difundidas não só em televisão e jornais, mas também em universidades e, pasmem, nas igrejas”, indigna-se Stedile.
Passo à frente
Mas, ao fim da década de 1990, relata o integrante da Via Campesina, os povos latino-americanos passaram a utilizar o instrumento eleitoral para marcar uma posição de resistência ao neoliberalismo.
O economista aponta que, como resultado, configuraram-se quatro tipos de governos. “Os antiimperialistas, como Bolívia, Cuba, Venezuela e Equador; os progressistas, como Nicarágua, Brasil, Argentina e Paraguai; os neoliberais, como México, Chile e Colômbia; e as colônias, como Porto Rico, Panamá e Guiana Francesa”.
Para ele, no continente, “demos um passo à frente ao eleger governos de esquerda. Mas não é o suficiente”, afirma Stedile que acredita o povo latino-americano está vivendo uma etapa de resistência em sua história. Atualmente, o economista acredita que somente na Bolívia existe um processo carregado de acúmulo ideológico e organizativo das forças populares.
Na avaliação de Stedile e Canese, a mobilização popular foi reacesa entre os bolivianos. Não fosse isso, o governo Evo Morales estaria enfrentando dificuldades ainda maiores na condução política de seu país. “O principal respaldo do governo é a mobilização popular”, pondera o paraguaio Canese. Somado a isso, ele aponta que a mobilização caminha ao lado da integração entre os povos latino-americanos.
Organizar, integrar, mobilizar
É a formação cultural e política dos indivíduos que lutam por um mundo novo o ingrediente capaz de organizar, integrar e mobilizar as pessoas, e por conseqüência, os povos. Esse foi o destaque do editor da Expressão Popular, Carlos Bellé, no primeiro dia do evento em Fortaleza. “Vamos estudar Karl Marx, Vladimir Lênin, José Carlos Mariátegui, Florestan Fernandes; todos os que representam um acúmulo da classe trabalhadora”. Destacou, no entanto, a necessidade de não se deixar de ler outras importantes obras literárias que contribuem para o conhecimento geral de cada indivíduo.
Bellé relatou o contato que teve com o ferreiro Nilton, durante feira de livros na cidade de São Luis (MA). Ao se aproximar do estande de sua editora, o homem corcunda e de mãos calejadas devido aos quatorze anos de trabalho de manual, resolveu comprar o livro “Marx e a Técnica” -estudo dos manuscritos do alemão de 1861 a 1863, de Daniel Romero. O editor da Expressão Popular conta que subestimou a capacidade do ferreiro, ao sugerir que o livro fosse complexo para a compreensão do trabalhador. Resposta de Nilton: “Leio devargazinho, faz bem à cabeça”.















