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Crônica de uma fraude anunciada

by Admin last modified 2009-06-25 14:26
Contributors: Editorial ed. 330

O que está em jogo no Irã é outra coisa. Trata-se de uma clara tentativa armada pela CIA (serviço secreto dos EUA) para desestabilizar o governo iraniano



25/06/2009


Editorial ed. 330



As eleições no Irã foram fraudadas, com o objetivo de assegurar a vitória de Mahmud Ahmadinejad, bradam sem cessar os grandes meios de comunicação em todo o mundo, desde o dia 13 de junho, quando foram anunciados os resultados oficiais. Ahmadinejad obteve 65% dos votos, contra os 32,6% obtidos pelo seu principal oponente, Mir Hussein Moussavi. O governo iraniano é também acusado de praticar censura à imprensa, de promover atos de brutalidade sangrenta contra os opositores que se manifestam nas ruas para exigir anulação das eleições, e de ignorar solenemente os mais sagrados valores da democracia.


É no mínimo interessante o fato de tais acusações serem muito mais brandas – se e quando são formuladas – contra o atual presidente do Egito, Hosni Mubarak, presidente sucessivamente reeleito desde 1981, sempre com fantásticos índices de aprovação próximos aos 100%. Com um detalhe: em 2007, também Mubarak anunciou que seu país iniciaria um programa nuclear pacífico. A diferença é que Mubarak é “do bem” – isto é, subserviente aos Estados Unidos -, ao passo que Ahmadinejad não é muito propenso a curvar sua coluna vertebral. Por falar em fraude eleitoral, aliás, quem não se lembra de como foi eleito o “baby” George Bush?


Se o critério é o respeito aos direitos humanos, então a mídia que brada contra Ahmadinejad terá que explicar o seu silêncio conivente (para dizer o mínimo), quando se trata da permanente e humilhante repressão exercida pelo Estado de Israel contra o povo palestino. Ou o silêncio cínico de Washington (disfarçado por eventuais protestos para “lavar a cara”) sobre a situação de seu principal parceiro comercial, a China.


Houve fraude nas eleições iranianas? Talvez. O Conselho dos Guardiões do Irã, órgão integrado por doze líderes religiosos, presidido pelo aiatolá Ali Khamenei, sucessor de Khomeini (líder da revolução islâmica de 1979) e o verdadeiro homem forte do país, reconheceu a existência de “irregularidades”, mas em proporções que não mudariam os resultados finais da disputa. Mir Hussein Moussavi e seus apoiadores mais próximos sabem disso, e manipulam o descontentamento do eleitorado jovem, que constitui a imensa maioria da população (cerca de 70% dos eleitores nasceram após a revolução de 1979 e não conheceram a ditadura sangrenta do xá Rheza Pahlevi).


O que está em jogo no Irã é outra coisa. Trata-se de uma clara tentativa armada pela CIA (serviço secreto dos Estados Unidos) para desestabilizar o governo iraniano. “Teoria conspirativa da esquerda”? Longe disso. Primeiro, a CIA já armou um golpe no Irã, em 1953, quando depôs o então primeiro-ministro eleito Mohamed Mossadegh, que havia nacionalizado as reservas de petróleo de seu país, e colocou o xá Pahlevi no poder. Em segundo lugar, há mais de dois anos altos funcionários do serviço secreto do Paquistão deixaram vazar documentos comprovando que a CIA despejou mais de quatrocentos milhões de dólares em um plano de desestabilização do governo iraniano. Deixemos a palavra com um analista acima de qualquer suspeita de “esquerdismo”, ninguém menos que o republicano estadunidense Paul Craig, ex-vice-secretário do Tesouro de Ronald Reagan:


“Vários comentaristas têm manifestado crença inabalável na pureza de intenções de Mousavi, do aiatolá Hussein Montazeri [apoiador de Moussavi] e da juventude ocidentalizada de Teerã. É como se o plano da CIA, de desestabilização, noticiado há dois anos, nada tivesse a ver com o desenrolar dos eventos de hoje. Tem-se repetido que Ahmadinejad roubou votos, porque o resultado foi apresentado depressa demais, em tempo que teria sido insuficiente para que os votos fossem contados. Mas, de fato, Moussavi foi o primeiro a declarar vitória, apenas algumas horas depois de encerrada a votação. É procedimento 'clássico' da CIA, para desacreditar resultados eleitorais que não sejam os 'desejados'. A CIA sempre apressa a declaração de vitória. Quanto mais tempo houvesse entre uma declaração 'preventiva' de vitória e a liberação das tabelas oficiais de votos apurados, mais tempo Moussavi teria para criar a impressão de que as autoridades eleitorais, responsáveis pelas eleições, estariam alterando as tabelas de apuração. (...) Quanto à acusação de que a eleição foi roubada, feita por Montazeri, ele foi o candidato inicialmente escolhido para suceder Khomeini; perdeu a disputa para o atual Líder Supremo. Para Montazeri, os protestos são ocasião perfeita para 'acertar as contas' com Khamenei. Em todos os casos seria bom negócio para Montazeri contestar as eleições, seja ele controlado pela CIA ou não — e a CIA tem longa história de sucessos no aliciamento de políticos derrotados em eleições perfeitas.”


Do ponto de vista das forças de esquerda, em todo o mundo, esta é a questão central: a CIA armou uma tentativa de golpe para tirar do poder um governo que não reza pela cartilha de Washington. Nada disso faz de Ahmadinejad um novo santo guerreiro contra o dragão da maldade, nem anula o evidente descontentamento que uma parcela importante da população manifesta nas ruas. Mas é necessário colocar a discussão nos seus termos reais, contra a mistificação montada pela Casa Branca e por seus cães de guarda midiáticos.

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