Carta aberta a invisibilidade do Cerrado na política ambiental
Definitivamente, senhor ministro, o Cerrado não pode continuar sendo vítima da ignorância interessada e de uma visão primeiro-mundista de meio ambiente
04/08/2008
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Não
é fácil assumir um Ministério do Meio Ambiente
num país como o nosso, com o patrimônio de recursos
naturais e diversidade cultural que temos, mas sob o domínio
de uma mentalidade desenvolvimentista que ainda pensa o presente e o
futuro com o passado fordista. Desde Fernando Collor de Mello que
esse Ministério vem sendo ocupado por eminentes ambientalistas
reconhecidos internacionalmente como o saudoso José
Lutzemberger e, recentemente, por Marina Silva e, agora, por V. Sa.
Tudo indica que nossas elites políticas compreenderam bem o
fato de o Brasil ser importante ecologicamente para o planeta e que
isso nos coloca sob os holofotes internacionais daí as
nomeações de personalidades tão respeitadas por
sua militância no campo.
No caso da Ministra Marina Silva esse fato se mostrou evidente, pois foi a primeira ministra a ser nomeada no 1° governo Lula da Silva, inclusive com sua nomeação feita isoladamente, quando o Presidente recém-eleito se encontrava em viagem ao exterior, e contra uma norma que ele mesmo estabelecera de que só revelaria seu Ministério todo junto. Vimos como, apesar de todos os esforços da ex-ministra, ela foi derrotada em todas as questões ambientais de fundo. Um dos principais efeitos da visão ambiental de nossas elites, pautada no que o primeiro mundo quer, tem sido, entre outras coisas, a amazonização da nossa política ambiental. Com toda a riqueza cultural e ecológica da Amazônia foi preciso muita luta, e mortes, para que se impusesse ao 1° Mundo a visão de que na floresta tem gente e que não era só um ecossistema, como até então nos viam. Foi preciso o brado “Não há defesa da floresta sem os povos da floresta”, povos tão bem liderados por Chico Mendes e Ailton Krenak, para que se firmasse uma visão própria da questão ambiental enquanto socioambiental diferente da visão eurocêntrica hegemônica que separa natureza e sociedade. Essa amazonização da política ambiental brasileira por essa visão estrangeira de nós mesmos é pobre, posto que não dá conta da diversidade de nossos biomas e da complexidade da questão ambiental em nosso país e, por isso mesmo, não consegue conter nem mesmo a expansão devastadora sobre a própria região-foco da política ambiental. Afinal, é um erro pensar a política para a Amazônia dissociada da política geral do país.
Em plenos anos 1970, senhor ministro, quando as estradas começavam a rasgar o coração da Amazônia, um dos maiores cientistas naturais do país, Mario Guimarães Ferri, afirmava que a ocupação racional dos Cerrados era fundamental para a preservação da Amazônia. Deixemos de lado, por enquanto, o que se considera uso racional que, quase sempre, ignora outras racionalidades que não a razão técnico-científica. Já se vão quase 40 anos e não só a Amazônia sofreu a maior devastação de toda a sua história como os Cerrados foram praticamente arrasados sem que tenhamos conseguido demonstrar o crime que se cometeu posto que, nos Cerrados, se desenvolveu a verdadeira menina dos olhos do modelo de ocupação com base nos latifúndios empresariais monocultores que, há 500 anos, mata e desmata RACIONALMENTE e que se reveste com o pomposo nome de agribusiness (assim mesmo, Senhor Ministro, em inglês, que é como se autodenomina a Associação Brasileira de Agribusiness que, assim, de brasileira tem somente o prenome, mas não o sobrenome, aquele que nos dá a origem).
O Cerrado, senhor ministro, é o único dos biomas brasileiros que faz limite com todos os outros biomas e, por isso, mantém áreas de tensão ecológicas que têm uma elevada complexidade, inclusive por sua megabiodiversidade, e onde o conhecimento pormenorizado advindo de uma longa vivência, como a dos camponeses, quilombolas e povos originários, se torna particularmente importante e, por isso, esses povos devem se tornar patrimônio do país (e da humanidade) pela relevante contribuição que têm para qualquer política ambiental para o país pelos Cerrados.
Guimarães
Rosa, Senhor Ministro, por sua refinada criatividade e capacidade de
escuta foi capaz de ouvir a cultura desses povos e nos deu uma obra –
Grande Sertão: Veredas – que, no próprio título,
mostra a profunda compreensão das paisagens dos Cerrados, suas
enormes e vastas chapadas onde o “coração vive à
larga”, como o gado solto, – os Grandes Sertões – e os
fundos de vales onde os povos fazem suas “agri-culturas”, – as
Veredas. Pois é, Senhor Ministro, as chapadas, onde os
pequenos agricultores encontravam limitações para a
agricultura não só pela menor fertilidade dos solos,
mas sobretudo pela dificuldade de obtenção de água,
é, para os agronegociantes um verdadeiro paraíso posto
que captam água com seus pivôs centrais e, sendo as
chapadas áreas extensas e planas, é muito menor o gasto
com energia, o que não é qualquer coisa para uma
prática agrícola energívora, como a desses
latifúndios empresariais monocultores para exportação
do agribusiness. Essas águas que são aspergidas por um
sistema de irrigação que desperdiça a maior
parte da água que capta é a água que, cada dia
mais, Senhor Ministro, falta no fundo do vale onde se faz agricultura
camponesa.
Assim, o camponês que sempre fez uso múltiplo das múltiplas paisagens do Cerrado – o fundo do vale, a encosta e a chapada – se vê agora encurralado posto que perde a chapada e se vê sem água. Essas chapadas, Senhor Ministro, tal como os fundos de pasto no Nordeste, são áreas tradicionalmente de uso comum, e é daí que vem o nome de Gerais, isto é, terra que pertence a todos, geral. A expropriação dessas extensas áreas comuns são os atuais enclousures. Guimarães Rosa foi quem, melhor do que ninguém, soube transcriar a riqueza cultural desses povos ao afirmar que os gerais são “uma caixa d`água” e com isso, mais do que os cientistas, iluminou a leitura de nossa geografia aos nos fazer ver que os nossos rios nascem nos Cerrados – o São Francisco, o Jaguaribe, o Parnaíba, o Tocantins, o Araguaia, o Xingu, o Madeira, os formadores do Paraguai (o Pantanal), o Paranaíba, o Grande, o Rio Doce. Temos uma legislação, Senhor Ministro, que protege as encostas em qualquer bioma, menos nos cerrados, onde mais do que em qualquer outro domínio geomorfológico, as chapadas se constituem em lugar privilegiado de recarga hídrica, daí termos tantos rios, a nossa “caixa d´água”. Enfim, se a água é uma riqueza com que a humanidade cada vez mais terá que se preocupar, os Cerrados devem, necessariamente, se tornar de maior interesse na nossa política ambiental, não bastasse sua enorme diversidade biológica já assinalada.
E
qual o legado, senhor ministro, que se tem de política
ambiental para o Cerrado? Antes de tudo, prevalece uma visão
de primeiro mundo da nossa política ambiental e que atua em
perfeita consonância com os interesses devastadores, pois
privilegia a criação de Unidades de Conservação
de uso restrito a técnicos e cientistas e deixa intacto todo o
modelo anti-social e anti-ecológico em curso nos cerrados.
Assim, ignora a perspectiva socioambiental, como sugere a Carta de
Imperatriz dos Povos do Cerrado, que diz “que não há
defesa dos Cerrados sem os povos do Cerrados”. Essa visão
estreita que vem imperando, Senhor Ministro, mais beneficia certas
ONG's que obtém recursos para áreas restritas de
preservação que, como vemos, mas as beneficiam enquanto
ONG's do que ao bioma e seus povos. Nessa visão, o modelo de
ocupação dos Cerrados é completamente ignorado e
é essa região, Senhor Ministro, que para espanto de
todos, inclusive meu, é a região onde estão os
maiores índices de violência no campo brasileiro, como
vêm registrando as entidades que lutam por paz e justiça
no campo e pela reforma agrária. É na região dos
Cerrados, Senhor Ministro, que está a maior parte das estradas
e das hidrelétricas que servem ao agribusiness e à
exportação de commoditties minerais, assim como a maior
parte das obras que estão para serem construídas no
PAC.
Definitivamente, senhor ministro, o Cerrado não pode continuar sendo vítima da ignorância interessada e de uma visão primeiro-mundista de meio ambiente que continua separando natureza e sociedade e, assim, mais que solução, é parte do problema. Se a maior parte das obras do PAC está no Cerrado há recursos do Fundo de Compensação Ambiental que devem servir aos Cerrados e seus povos, para o que se necessita uma Secretaria do Cerrado forte dentro do Ministério dirigida por alguém que tenha uma clara compreensão da dinâmica sócioespacial que sobre ele se desenvolve e que esteja à altura da riqueza dos Cerrados e de seus povos! Para que não tenhamos daqui a 40 anos que vê-lo ainda mais devastado assim como a Amazônia! E que o uso racional dos cerrados não prescinda da racionalidade de seus povos, como até aqui vem se desperdiçando essa rica experiência!
Carlos
Walter Porto-Gonçalves é doutor em Geografia e
Professor do Programa de Pós-graduação em
Geografia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do CNPq –
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
– e do Grupo Hegemonia e Emancipações de Clacso.
Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de
Literatura Brasileira.















